Evolução dos passes na Umbanda e no Espiritismo: diferenças e semelhanças

Short Answer

A prática dos passes, técnica de transmissão de energia curativa, desenvolveu-se de forma distinta na Umbanda e no Espiritismo. Este artigo analisa sua origem, evolução, diferenças metodológicas e convergências, ressaltando aspectos históricos, doutrinários e acadêmicos.

A prática dos passes, ou transmissão de energia curativa, ocupa lugar central tanto na Umbanda quanto no Espiritismo. Embora compartilhem raízes comuns no pensamento kardecista, cada tradição adaptou o método a seus próprios rituais, cosmologias e necessidades socioculturais. Este texto examina a trajetória histórica, as interpretações doutrinárias e as divergências práticas entre as duas correntes.

Origem e história

Os passes surgiram no final do século XIX, influenciados pelas ideias de mesmerismo e magnetismo animal que circulavam na Europa. Allan Kardec, ao codificar o Espiritismo, incorporou a noção de energia espiritual como agente de cura, mas não definiu um ritual específico. Na primeira metade do século XX, médiuns brasileiros começaram a aplicar toques leves nas áreas do corpo, denominando‑os passes. Já na Umbanda, o ponto de passe foi institucionalizado pelos primeiros terreiros, especialmente por figuras como Zélio Fernandino de Moraes.

Como o conceito é entendido

Nos dois sistemas, o passe é visto como transferência de fluidos espirituais que equilibram o campo energético do consulente. No Espiritismo, a ênfase recai sobre a intervenção de espíritos superiores que, por meio do médium, conduzem a energia. Na Umbanda, os passes são frequentemente realizados por entidades (exu, caboclos, pretos‑velhos) que incorporam o médium, cada uma trazendo sua vibração particular.

No Espiritismo

O passe espírita costuma ser realizado em ambiente simples, sem música ou objetos simbólicos. O médium, em estado de transe parcial, impõe as mãos sobre a cabeça, peito ou membros do consulente, transmitindo “fluido vital” inspirado pelos Espíritos de luz. A prática segue diretrizes estabelecidas nas obras de Kardec, sobretudo no Livro dos Médiuns, que recomenda clareza moral e preparação espiritual do operador.

Na Umbanda

Em contraste, a Umbanda incorpora música, cantos, e pontos (cânticos) específicos que invocam a entidade responsável pelo passe. Cada linha de trabalho (exú, caboclo, preto‑velho) possui um repertório próprio, e o toque pode ser mais dinâmico, envolvendo rotação de mãos, uso de objetos como água de rosas ou ervas. O objetivo não é apenas a cura física, mas também a harmonização psíquica e a limpeza de influências negativas (giro).

Características principais

  • Intencionalidade: Espiritismo – foco na elevação moral; Umbanda – foco na proteção e equilíbrio energético.
  • Ritualidade: Espiritismo – minimalista; Umbanda – rica em cantos, tambores e símbolos.
  • Entidade mediadora: Espiritismo – espíritos de luz; Umbanda – linhas de entidades com personalidades distintas.
  • Local de realização: Espiritismo – centros espíritas; Umbanda – terreiros ou casas de santo.

Equívocos comuns

Um mito recorrente é que os passes seriam “magia negra” ou “curas milagrosas”. Na realidade, ambas as tradições enfatizam a **responsabilidade ética** do praticante e a necessidade de acompanhamento médico quando necessário. Outro equívoco é confundir passes com reiki ou outras técnicas ocidentais; embora compartilhem a ideia de energia, os fundamentos teológicos são diferentes.

Diferenças em relação a outras tradições

Comparado ao Reiki ou ao Prana‑Yoga, o passe espírita e o passe umbandista são explicitamente vinculados a uma cosmologia de espíritos**. Enquanto no Reiki a energia (ki) é considerada impessoal, nos passes a identidade da entidade que a canaliza é central para a eficácia e para o significado simbólico do ato.

Perspectivas acadêmicas

Estudos antropológicos, como os de Reginaldo Prandi e Rogério de Azevedo, apontam que os passes funcionam como rituais de coesão social nos terreiros, reforçando a identidade grupal e a hierarquia simbólica. Pesquisas em psicologia da saúde sugerem que o efeito placebo, aliado à atualização de expectativas positivas, pode explicar parte dos benefícios relatados pelos consulentes.

Importância histórica e cultural

Os passes simbolizam a capacidade de síntese entre tradições africanas, indígenas e europeias que caracteriza a religiosidade brasileira. Eles representam, ao mesmo tempo, a continuidade da prática de cura popular e a adaptação dos ensinamentos kardecistas ao contexto urbano do século XX.

FAQ

Qual a diferença fundamental entre o passe espírita e o passe umbandista?

O passe espírita enfatiza a transmissão de energia de espíritos de luz em ambiente simples, enquanto o passe umbandista incorpora entidades específicas, cantos e objetos ritualísticos para proteção e limpeza energética.

É necessário ser médium para receber passes?

Não. Qualquer pessoa pode receber passes; a eficácia depende da abertura energética do consulente e da intenção do praticante.

Os passes substituem tratamento médico?

Não. Eles são complementares e devem ser usados como apoio, nunca como substituto de cuidados médicos convencionais.

Posso aprender a fazer passes sem filiar-me a um terreiro ou centro espírita?

É recomendável receber orientação de um mentor experiente, pois a prática envolve responsabilidade ética e preparação espiritual.

Os passes têm comprovação científica?

Estudos apontam efeitos psicossomáticos positivos e relação com o efeito placebo, mas ainda não há consenso científico sobre mecanismos específicos.

References

  1. KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 1864. Rio de Janeiro: Editora Espírita.
  2. PRANDI, Reginaldo. Umbanda: religião brasileira. São Paulo: Editora Brasiliense, 2004.
  3. AZEVEDO, Rogério de. Passes e cura energética na Umbanda: uma abordagem antropológica. Revista Brasileira de Antropologia, vol. 45, n. 2, 2018, p. 115‑132.

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