Indice - compilado por Beraldo Figueiredo

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 310 - OUTROS ESPIRITUALISTAS:

   

310.7 - FILÓSOFOS

 

 

310.7.4 - OUTROS FILÓSOFOS

310.7.4.11 - Giordano Bruno

Giordano Bruno (1548 — Roma, 17 de fevereiro de 1600) foi um teólogo, filósofo, escritor e frade dominicano italiano, condenado à morte na fogueira, pela Inquisição romana (Congregação da Sacra, Romana e Universal Inquisição do Santo Ofício), por heresia. É também referido como Bruno de Nola ou Nolano.

Vida:

Filho do militar João Bruno e de Flaulissa Savolino, seu nome de batismo era Filippo, tendo adotado o nome de Giordano quando ingressou na Ordem Dominicana (no convento de Nápoles em 1566). Lá, estudou profundamente a filosofia de Aristóteles e de São Tomás de Aquino, doutorando-se em Teologia.

 

Sempre contestador, não tarda a atrair contra si próprio opiniões contrárias e perseguições. Em 1576 abandona o hábito ao ser acusado de heresia por duvidar da Santíssima Trindade. Inicia, então, uma peregrinação que marcou sua vida, visitando Gênova, Toulouse, Paris e Londres, onde passou dois anos (1583 a 1585) sob proteção do embaixador francês, freqüentando o círculo de amigos do poeta inglês Sir Philip Sidney. Em 1585, Bruno retornou a Paris, indo em seguida para Marburg, Wittenberg, Praga, Helmstedt e Frankfurt, onde conseguiu publicar vários de seus escritos.

 

Defensor do humanismo, corrente filosófica do Renascimento (cujo principal representante é Erasmo), Bruno defendia o infinito cósmico e uma nova visão do homem. Embora a filosofia da sua época estivesse baseada nos clássicos antigos, dentre os quais principalmente Aristóteles, Bruno teorizou veementemente contra eles. Sua forma e conteúdo são muito semelhantes às de Platão, escrevendo na forma de diálogos e com a mesma visão.

 Nômade por natureza e modo de vida, Bruno baseou sua filosofia apoiado nas suas intuições e vivências fora do comum. Defendeu teorias filosóficas que misturavam um neo-platonismo místico e panteísmo. Acreditava que o Universo é infinito, que Deus é a alma universal do mundo e que todas as coisas materiais são manifestações deste principio infinito. Por tudo isso, Bruno é considerado um pioneiro da filosofia moderna, tendo influenciado decisivamente o filósofo holandês Baruch de Espinoza e o pensador alemão Gottfried Wilhelm von Leibniz.

 

Ideais:

Ao contrário do que se pensa comumente, Giordano Bruno não foi queimado na fogueira por defender o heliocentrismo de Copérnico.

 

Um dos pontos chaves de sua teoria é a cosmologia, segundo a qual o universo seria infinito, povoado por milhares de sistemas solares, e interligado com outros planetas contendo vida inteligente. Para esta perspectiva bebeu na fonte de Nicolau da Cusa, Copérnico e também de Giovanni Della Porta.

 

John Gribbin, em seu livro "Science: A History 1543-2001" explica que Bruno participava de um movimento chamado Hermetismo, que se baseava em escrituras que, de acordo com o que era dito, teriam se originado no Egito na época de Moisés. Entre outras referências, esse movimento utilizava os ensinamentos do deus egípcio Thoth, cujo equivalente grego era Hermes (daí hermetismo) - conhecido pelos seguidores como Hermes Trimegistus. Bruno teria abraçado a teoria de Copérnico porque ela se encaixava bem na idéia egípcia de um universo centrado no Sol.

 

Deus seria a força criadora perfeita que forma o mundo e que seria imanente a ele. Bruno coaduna com os poderes humanos extraordinários, mas enfrentou abertamente a Igreja Católica e seus preceitos.

 

Universo Infinito de Giordano Bruno

 

Artigo escrito por Pablo Dressel

A forma como defendeu, até ao fim, as suas convicções filosóficas, consideradas heréticas pelo Santo-Ofício, fizeram do filósofo napolitano Giordano Bruno um símbolo marcado por um mundo e por uma época onde labaredas castigavam espíritos discordantes. E embora já muitos outros autores fossem lidos e divulgados, para a época do renascimento as idéias de Aristóteles continuavam a ser o alicerce de novas respostas, idéias que condizem que um mundo infinito não era coisa sequer concebível.

 

Giordano Bruno, Filósofo, astrônomo e matemático, rejeitou a teoria geocêntrica tradicional e ultrapassou a teoria heliocêntrica de Copérnico que ainda mantinha o universo finito com uma esfera de estrelas fixas. Embora tais campos não existissem ainda na ciência, pode-se dizer que Bruno estava interessado na natureza das idéias e do processo associativo na mente humana. Por outro lado, está fascinado em prover com um embasamento filosófico as grandes descobertas científicas de seu tempo. Mesmo que a conseqüência seja o fim de sua própria vida.

 

E mais, nessa época que segue as idéias aristotélicas, tudo o que compõe a natureza assim como tudo o que ela encerra é, necessariamente, limitado e finito, quer seja no tempo, quer seja no espaço. O mundo aristotélico é um mundo fechado. Já o Universo de Giordano Bruno tem o ânimo de uma outra dimensão, bem mais generosa e bem mais ousada.

  

Não é pelos sentidos que podemos chegar ao infinito, assim como não é através dos olhos que podemos ver a substância ou essência. Não é pelos sentidos que chegamos a esta conclusão, porque o infinito não pode ser objeto dos sentidos. E quem nega o infinito por não ser sensível, nega o próprio ser. Por isso resta apenas ao intelecto julgar e dar razão sobre aquilo que é afastado do tempo e do espaço.

 

Se o mundo é finito e fora do mundo nada existe, onde está o mundo? Onde está o universo? Estarão o céu e o mundo em parte alguma?

 

O que está além do mundo? Se a resposta é nada, então é certo dizer que há o vácuo. E que o vácuo não possa ter limites senão o limite que separa ele mesmo do mundo. Pois um nada limitado seria muito mais difícil de imaginar.

 

Por não haver limite, nem termo ou superfície, é dito com razão que o universo onde o nada e o mundo estão (se é que se pode afirmar que o nada está em algum lugar) é “Todo Infinito”, porque não possui limite e nem termo. Porém não pode ser dito que é “Totalmente Infinito”, pois dizer isso é o mesmo que afirmar que cada parte tomada do universo é infinita também. E não é pois, como dito, o mundo finito é parte do universo infinito. E sobre ser “Todo Infinito”, digo que Deus também é, por excluir de si qualquer termo ou limite e também por que cada um de seus atributos é uno e infinito. Mas Deus também é “Totalmente Infinito” porque está inteiramente em todo o mundo e em cada uma de suas parte, diferente da infinitude do Universo que existe totalmente no “todo”, e não nas “partes”.

 

Logo, por todas as razões segundo as quais se afirma ser conveniente, justo e necessário este mundo, considerado como finito, assim também devem ser considerados convenientes e justos todos os outros inumeráveis mundos, aos quais, pelo mesmo raciocínio, a onipotência concede a existência; e sem os quais ela mesma viria a ser acusada de deixar um vácuo, em outras palavras, por não querer ou não poder, onde não há a existência do ser há o universo infinito de nada.

  

Que motivo nos levaria a acreditar que o agente, podendo fazer um bom infinito, o faça finito?

 

E se o faz finito, por que devemos acreditar que possa fazê-lo infinito, sendo nele a mesma coisa o poder e o fazer?

Pelo seguinte:

 

-se é imutável, não há contingência nem na operação, nem na eficácia, mas de uma de uma determinada e certa eficácia depende imutavelmente determinado e ceto efeito;

 

-daí não poder ser outra coisa senão aquilo que é, nem poder ser aquilo que não é;

 

-nem pode ser senão aquilo que pode;

 

-não pode querer outra coisa senão aquilo que quer;

 

-e necessariamente, não pode fazer outra coisa senão aquilo que faz;

 

-porquanto, possuir a potência distinta do ato é próprio somente das coisas mutáveis.

 

Certamente não é sujeito de possibilidade ou potência aquilo que nunca existiu, não existe e nunca existirá;

 

Se o primeiro eficiente não pode querer nada mais além daquilo que quer, também não pode realizar nada além daquilo que faz.

 

Por isso não há como crer na potência ativa infinita, à qual não corresponda potência passiva infinita, pretendo que faça apenas um e finito aquele que, no infinito e imenso, pode fazer inumeráveis, sendo sua ação necessária, porque precede de tal vontade que, por ser imutabilíssima, antes, a própria imutabilidade, é ainda a própria necessidade. E por isso é necessário afirmar das duas uma

 

-ou que o eficiente seja reconhecido como causa e princípio de um imenso universo que contém inumeráveis mundos

 

-ou que dependendo dele um universo finito, com astros de números determinados, seja atribuído a uma potência ativa e determinada, como é determinado e finito o ato, pois tal é a vontade e tal é a potência, qual é o ato.

 

Se o universo for Infinito e Imóvel, não é necessário procurar o motor dele. E mais, se infinitos são os mundos contidos no universo, todos se movem pelo princípio interno, que é a própria alma. E também cada mundo, ou astro, assim como esta Terra, não estão fixos em parte alguma, e giram em volta de seu próprio eixo ou em torno de um sol, movidos pelo instinto animal interno e tais mundos, inumeráveis, são similares ao do sistema solar.

 

Porém, o movimento dos astros não seria esférico como Copérnico havia apresentado. Bruno suprime a esfera das estrelas fixas conservada por Copérnico e alarga o universo ao infinito. O universo não tem limites nem referência absoluta e, portanto, as várias imagens dele são relativas: qualquer ponto é centro - periferia.

 

Como no exemplo onde: algo que suba da terra em direção a lua, para quem estiver na lua lhe parecerá que está caindo da terra em direção ao solo lunar e não subindo. E assim é tão certo afirmar que algo que esteja caindo está subindo ao mesmo tempo, quanto afirmar sobre a impossibilidade de o infinito ser tão verdadeiro quanto afirmar que o universo é infinito, mesmo que pareça absurdo, e também é por isso que de forma alguma é oportuno destruir a filosofia alheia para confirmar a própria, pois na verdade são apenas argumentos e palavras jogadas ao vento.

 

Por ser assim, todo movimento relativo, no todo nada é imóvel, nem mesmo a terra, – como Copérnico viera confirmar com seu heliocentrismo – e os astros, erroneamente tomados por estrelas fixas, são sóis de longínquos sistemas solares copernicanos. No Universo de Bruno o movimento de todas as coisas não seria de natureza puramente mecânica, como se o mundo fosse um jogo de partículas móveis, cujo deslocamento seria resultado de um movimento inicial gerado por um ser superior, – como Aristóteles apresenta – um primeiro motor que possa gerar movimento e mesmo assim ser imóvel, que explicado por São Tomás de Aquino seria Deus. Assim, a ortodoxia cristã, apoiada na metafísica aristotélico-tomista, coloca Deus como a primeira causa e transcendente, ou seja, tem existência plena e separada de suas criaturas. Bruno, ao contrário, considera Deus como aquilo que consiste na própria essência de todo Universo e idêntico a ele. Deus seria o próprio mundo, não podendo ser o criador do Universo.

 

Mas a Igreja interpretou de outra forma suas afirmações. Com pensamentos como este de que o universo é formado por inumeráveis mundos onde as coisas são relativas e por isso não podem ser confirmadas, a igreja conclui que Bruno afirma que além da bondade ser relativa, Deus também é assim como pode ter havido um Jesus em cada mundo.

 

Bruno causa inquietação na Igreja Católica que, por ordem papal, decide e aprova o suplício de Bruno em 1600, executado "sem que o sangue fosse derramado", isto é, Bruno foi queimado vivo na fogueira em praça pública, visto por todos inclusive pelo governador da cidade. O que causou enorme desconfiança da ciência para com a Igreja. Até hoje a Igreja Católica só deplorou a execução, mas não os motivos da sua condenação. E o Pontificam Consilium Cultura que reabilitou Galileu Galilei, somente em 1992, ainda não tomou uma decisão favorável a Giordano Bruno. A obra de Bruno por sua vez só foi retirada do Index dos livros proibidos aos católicos em 1948, mostrando mais uma vez como foi mal visto pela Igreja por apresentar uma idéia de mundo que depois foi tão fácil aceita por tantos outros pensadores como: Newton, Koyré e Einstein.

 

Obras:

 

Monumento erguido em 1889 por círculos maçônicos italianos, no local onde Giordano Bruno foi executado. Campo de Fiori, Roma, ItáliaIl Candelaio, em 1582

Cena de le Ceneri, em 1584

De l’infinito universo e mondi, em 1584

De la causa, principio e uno, em 1584

Gli eroici furori, em 1585

 

Morte:

O nobre veneziano chamado Giovanni Mocenigo encontrou Bruno em Frankfurt em 1590 e convidou-o para vir a Veneza, sob o pretexto de ensinar a mnemotécnica, a arte de desenvolver a memória, em que Bruno era perito. Como Mocenigo quisesse usar as artes da memória com fins comerciais, segundo alguns, ou para prejudicar seus concorrentes e inimigos conforme outros, Bruno negou-se a lhe ensinar. Por isso Mocenigo trancou-o num quarto e chamou os agentes da Inquisição para levarem-no preso, acusando de heresia. Bruno foi preso no San Castello no dia 26 de maio de 1592.

 

Por estas opiniões quentes e perigosas para a época que Giordano Bruno foi condenado pela Inquisição, tendo passado seus últimos oito anos sofrendo torturas e maus tratos de todos os tipos.[carece de fontes?] No último interrogatório não se submete, mostra força e coragem. Por não abjurar, é condenado à morte na fogueira, mas antes de morrer queimado no Campo de Fiori, ele afronta ainda mais uma vez seus inquisidores. É dito que cuspiu no crucifixo dos os que o mataram. Porém alguns consideram que não o tenha feito e este relato seja para tentar depreciar mais sua imagem. Morreu na fogueira com tábua e pregos na língua, para parar de "blasfemar".

 

Ao ser anunciada a sentença de que seria executado piamente, sem profusão de sangue (que em verdade significava a morte pela fogueira) disse: "Teme mais a Força em pronunciar a sentença do que eu em escutá-la"

 

Bruno também escreveu um livro polêmico, "A ceia das Cinzas", que foi queimado pela Igreja Católica.

 

 

O martírio de Giordano Bruno:

 

do site : http://educaterra.terra.com.br/voltaire/cultura/giordano4.html 

 

A execução de Bruno

 

"Ainda que isso seja verdade, não quero crê-lo; porque não é possível que esse infinito possa ser compreendido pela minha cabeça, nem digerido pelo meu estômago..."

Búrquio, num diálogo de G.Bruno, in ...do infinito, do universo e dos mundos, 1584

   

O lúgubre cortejo saindo da prisão da Inquisição ao lado da Igreja de São Pedro seguiu pelas ruas de Roma até chegar no Campo dei Fiori, uma praça onde uma enorme pilha de lenhas amontoava-se ao redor de uma estaca. Era a fogueira que iria abrasar vivo o filósofo Giordano Bruno. Trouxeram-no com uma mordaça na boca por temerem que ele pudesse dirigir algumas palavras perigosas ao povo que se juntou a sua passagem. Ao oferecerem-lhe o crucifixo para o beijo derradeiro, revirou os olhos. Em minutos, ao embalo das preces dos monges de San Giovanni Decollato, o verdugo jogou uma tocha na base da pira que num instante devorou o corpo. Estava feito. Era o dia 17 de fevereiro de 1600.

 

Giordano Bruno 

Talvez ele recordasse naquele instante derradeiro as palavras que certa vez escrevera num momento de profunda melancolia: "Vejam", prognosticou ele, "o que acontece a este cidadão servidor do mundo que tem como o seu pai o Sol e a sua mãe a Terra, vejam como o mundo que ele ama acima de tudo o condena, o persegue e o fará desaparecer". Bruno, morto aos 52 anos, tornou-se um mártir do livre-pensamento e um símbolo da intolerância da contra-reforma da Igreja Católica.

 

 

 

O processo da Inquisição:

 

Interrogando um herético: 

O Santo Ofício prendera-o oito anos antes em Veneza, onde respondeu ao primeiro processo que a Inquisição lhe moveu. Sabe-se com detalhes deste episódio porque a documentação chegou a ser publicada em 1933 por Vicenzo Spampanato(*). Para os seus admiradores, Giordano Bruno, que há anos vivia no exterior, teria retornado à Itália em razão de um embuste. Uma dupla de livreiros, atendendo a um desejo de um nobre veneziano chamado Giovanni Mocenigo, ao encontrar Bruno na Feira do Livro de Frankfurt (que já existia naquela época) na Alemanha em 1590, convidou-o para vir a Veneza a pretexto de ensinar a mnemotécnica, a arte de desenvolver a memória, na qual ele era um perito. Uns tempos depois da sua volta, devido a um áspero desentendimento, Mocenigo trancou-o num quarto da sua mansão e chamou os agentes do tétrico tribunal para levarem-no preso, acusado de heresia. Encarceraram-no na prisão de San Castello no dia 26 de maio de 1592.

(*) Documenti della vita di Giordano Bruno, Florença.

 

Nesta primeira vez em que o interrogaram, Bruno conciliou. De nada lhe serviu. O Santo Ofício de Roma, alegando soberania sobre o de Veneza em casos de heresia, exigiu que o Doge, mesmo a contragosto, enviasse Bruno preso. Enquanto não se deu o translado, além de terem-no torturado, colocaram-no num espantoso calabouço, um poço imundo, húmido e escuro como breu, cavado num porão a beira do canal. A viagem a Roma, ainda que a ferros, deve ter-lhe sido um alivio.

 

O interrogatório e o ultimato:

 

Clemente VIII, autorizou a sentença de Bruno 

 

Em 27 de fevereiro de 1593 ele chegou à prisão papal. Seguiu-se então um longo e morosíssimo processo, onde os inquisidores não sabiam bem o que fazer com ele. Interrogou-o o jesuíta Roberto Bellarmino que anos depois, em 1616, já cardeal, iria acusar Galileu Galilei. Sujeitaram-no a vinte e uma entrevistas. Ocorreu que nestes anos em que passou encarcerado, Bruno mudou sua posição. O confinamento, a má comida, o frio permanente, e a constante espionagem dos seus vizinhos de cela (nos processos encontram-se citados mais de cinco testemunhos deles), ao invés de enfraquecerem-lhe o ânimo, tiveram um efeito contrário. Além de aumentar o seu desprezo pela Igreja, endureceu-lhe a posição: "não creio em nada e não retrato nada, não há nada a retratar e não serei eu quem irá se retratar!". Infelizmente não foi esse o entender definitivo da Congregação do Santo Ofício que reuniu-se em 21 de dezembro de 1599, presidida pelo papa Clemente VIII.

 

"Os padres teólogos", determinava o documento final, "deverão inculcar no dito frade Giordano (Bruno era frei dominicano, mas não mais vinculado a ordem), que suas proposições são heréticas e contrárias à fé católica... Se as rechassar como tais, se quiser abjurá-las, que seja admitido para a penitência com as devidas penas. Se não, será fixado um prazo de 40 dias para o arrependimento que se concede aos hereges impenitentes e pertinazes. Que tudo isso se faça da melhor maneira possivel e na forma devida".

 

 

A leitura da sentença:

Cena de tortura na época da Inquisição 

Exigia-se a sua rendição final: abjurava e o deixavam vivo, ou o excomungavam e o entregavam ao braço secular para que o executassem, "sem que o sangue fosse derramado", isto é, o queimassem. O papa esperava um triunfo. A capitulação de Bruno teria um notável efeito propagandístico num ano da "graça"como o de 1600. Ele rejeitou. Conduziram-no então à praça Navone para escutar a sentença no dia 8 de fevereiro. Ajoelhado em frente a nove inquisidores e ao governador da cidade, disse-lhes: "vocês certamente têm mais medo em pronuciar esta sentença do que eu em escutá-la!"

 

 

Bibliografia sobre Bruno

Bombassaro, Luiz Carlos. Giordano Bruno e a filosofia na Renascença, Caxias do Sul: Educs, 2008.

Ordine. Nuccio. O umbral da sombra. São Paulo: Perspectiva, 2006.

Reale, G. & Antiseri, D. - História da Filosofia, Volume II, Ed.Paulus, São Paulo, 1990.

Yates, F. A. - Giordano Bruno e a Tradição Hermética, Ed. Cultrix, São Paulo, 1988.

Bossy, John, Giordano Bruno e o Mistério da embaixada, Ediouro, 1993, 272p.

Giuliano Montaldo Giordano Bruno, o filme, com Gian Maria Volontè, 1973, duração 123min.

 

Bibliografia de Bruno em português:

Bruno, Giordano. Sobre o infinito, o universo e os mundos. São Paulo: Abril Cultural, 1992.

Bruno, Giordano - Acerca do infinito, do universo e dos mundos, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa,1984

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 310.7.4.12 - Ken Wilber

Ken Wilber (Kenneth Earl Wilber Jr.), nascido em 31 de Janeiro de 1949, Oklahoma City (EUA), é um famoso pensador e criador da Psicologia Integral.

Sua obra concentra-se basicamente na integração de todas as áreas do conhecimento (ciência, filosofia, arte, ética e espiritualidade). A preocupação em unir ciência e religião apoia-se em sua própria experiência e na de diversos místicos de todas as grandes tradições de sabedoria, tanto ocidentais quanto orientais; aliado à sua releitura transpessoal da psicologia analítica de Carl Gustav Jung.

Mesmo sendo considerado um fundador da escola da Psicologia Transpessoal, desde então ele se dissociou dela. Em 1998 Wilber fundou o Instituto Integral (Integral Institute), organização que reúne os inúmeros pensamentos nas questões sobre a ciência e a sociedade de maneira integral. Ele tem sido pioneiro no desenvolvimento da Psicologia Integral, da Política Integral - e, mais recentemente, de uma nova Espiritualidade Integral.

No dia 4 de Janeiro de 1997, o jornal alemão Die Welt declarou Wilber como "o maior pensador no campo da evolução da consciência". Segundo muitos formadores de opinião em filosofia, psicologia e espiritualidade, Ken Wilber seria o maior filósofo da atualidade - ainda não compreendido em seu tempo, uma vez que desenvolve as estruturas e idéias que, quando reconhecidos e aplicados, tendem a ampliar a futura visão de mundo, ciência e religião em um novo paradigma "integral".

Obra:
No Brasil, Ken Wilber é mais conhecido pela fase inicial de seus trabalhos, em especial pelos livros "Espectro da Consciência" e "Projeto Atman". Contudo, sua maior contribuição filosófica - a proposta de integração de todas as áreas do conhecimento humano - ainda estaria por vir.

Em seus novos trabalhos, Wilber dedica-se à prospecção de uma "Teoria de Tudo", um metamodelo do conhecimento já produzido que possa unificar e estruturar a visão do que chama de Kosmos: físico, vida, mente, alma e espírito.

Em "Consciência Cósmica" (Kosmic Consciousness), Wilber começou o que ele se intitula: contador de histórias e criador de mapas. Suas histórias falam sobre questões universais e seus mapas integram várias perspectivas do cosmos.

Em "Uma Teoria de Tudo" (A Theory of Everything), texto introdutório ao paradigma integral, Wilber sintetiza suas teorias e ferramentas, e propõe uma visão integral - e unificável - para os negócios, a política, a ciência e a espiritualidade.

Em "Espiritualidade Integral", Wilber expande sua visão Integral para formular uma nova teoria para a espiritualidade, propondo um papel inovador para a religião, transcendência e sua aplicação no cotidiano.

Seguindo a tradição de muitos filósofos, Ken Wilber possui também uma obra de ficção (Boomerite: Um Romance que deixará você livre), onde seus questionamentos e conceitos podem ser absorvidos didaticamente ao serem retratados no cotidiano de um homem de seu tempo

Bibliografia em português:
O Paradigma Holográfico e Outros Paradoxos (Cultrix, 1991, ISBN 85-316-0288-2)
O Espectro da Consciência (Cultrix, 1990, ISBN 85-316-0154-1)
A Consciência Sem Fronteiras (Cultrix, 198?, ISBN?)
Um Deus Social (Cultrix, 1987, ISBN 85-316-0384-6)
Transformações da Consciência (Cultrix, 1999, ISBN 85-316-0469-9)
O Projeto Atman: Uma Visão Transpessoal do Desenvolvimento Humano (Cultrix, 1999, ISBN 85-316-0608-X)
O Olho do Espírito (Cultrix, 2001, ISBN 85-316-0665-9)
A União da Alma e dos Sentidos (Cultrix, 2001, ISBN 8531607035)
Uma Breve História do Universo (Nova Era, 2001, ISBN 8501056936)
Uma Breve História de Tudo (Via Óptima, 2002, ISBN 972-9360-17-0)
Psicologia Integral: Consciência, Espírito, Psicologia, Terapia (Cultrix, 2002, ISBN 85-316-0763-9)
Uma Teoria de Tudo (Cultrix, 2003, ISBN 85-316-0778-7)
Boomerite: Um Romance que Tornará Você Livre (Madras, 2005, ISBN 8573749423)
Uma Teoria de Tudo (Oficina do Livro, 2005, ISBN 972-8929-07-2)
Ken Wilber em Diálogo (Madras, 200?, ISBN 8573748796)
Espiritualidade Integral (Aleph, 2007, ISBN 978-85-7657-025-7)
Graça e coragem: espiritualidade e cura na vida (Gaia, 2007, ISBN 8575551566)
A visão integral (Cultrix, 2009, ISBN 8531610273)
Em parceria com outros autores:

Vida depois da morte: a ciência na fronteira do mistério (Ken Wilber, Rupert Sheldrake, Stamislav Grof, Gary Doore; Esquilo, 2005, ISBN 972860548x)

Fases de Ken Wilber:
O próprio filósofo define sua obra em 5 fases:

Na Fase 1, (-1979), se identifica com a psicologia junguiana e a filosofia romântica, vendo o crescimento espiritual como um retorno ao Self.
Na Fase 2, de 1980 a 1982, adentra a psicologia do desenvolvimento, aprofunda seus estudos da consciência, agregando filosofias ocidentais e orientais. Nesta fase, o crescimento espiritual é fruto do processo de amadurecimento.
Na Fase 3, de 1983 a 1987, compreende o amadurecimento como um processo complexo, onde é necessário um equilíbrio do Self entre o desenvolvimento cognitivo, emocional, social e espiritual; dentre outros.
de 1987 a 1995, praticamente não publica, devido a questões pessoais - em especial a grave doença de sua esposa, falecida em 1989.
Na Fase 4, de 1995 a 2001, sua teoria ganha dimensões socioculturais, através da teoria dos quadrantes (eu, isto, nós, istos; intencional, neurológico, cultural e socioeconômico), a aplicação dos mesmos a todo o conhecimento humano, sua interdependência, e o "fundamentalismo" de visões (filosofia, ciências, espiritualidade, psicologia, etc) baseadas em apenas um destes aspectos.
Na Fase 5, "pós-metafísica" (2001-), Wilber parte para uma visão mais integral de sua teoria. A questão transcendente permanece, mas há uma compreensão de todos os níveis da Espiral Dinâmica, inclusive os "mundanos"; em lugar de sua abordagem metafísica (evolução/involução) anterior. Seu próprio modelo passa a ter uma abrangência que se estende a todos os quadrantes, tipos, níveis, linhas e estados previamente definidos em sua prospecção do conhecimento humano.

Conceitos:
No modelo de Ken Wilber, a consciência se organiza em esferas evolutivas que sucessivamente incluem e transcendem a camada anterior. A vida inclui e transcende a organização física e molecular onde ocorre; a mente, por sua vez, inclui e transcende a vida; a alma inclui e transcende a mente; e o espírito, a alma.

A: Matéria / Física - A
B: Vida / Biologia - A+B
C: Mente / Psicologia - A+B+C
D: Alma (sutil) / Teologia - A+B+C+D
E: Espírito (causal) / Misticismo - A+B+C+D+E
Esta idéia que qualquer "todo" conhecido é apenas um "holon" (parte de um "todo maior", conceito holístico emprestado de Arthur Koestler), e aplica-se também átomos, moléculas e organismos; letras, palavras, frases, páginas, livros e idéias; e à própria consciência humana, um holon que se manifesta em quatro quadrantes: eu, isto, nós, "istos" (isto coletivo).

Por este modelo, a negação das camadas vistas como "inferiores" (comum a vários sistemas filosóficos e religiosos), seria um equívoco; assim como o descarte, por parte de alguns campos da ciência, de toda esfera que transcenda os limites de sua visão.

A visão científica em geral considera um "cosmos" da realidade física como "todo", e não um holon. Isso implica a visão de que apenas a física e causalidade seriam as ciências perfeitas e reais. Wilber propõe a retomada do conceito grego de "Kosmos", que inclui não só a matéria, mas também a vida, a mente, a alma e o espírito. Assim, uma visão materialista encontraria explicações para o domínio de seu "olho do físico", criando teorias para o cosmos. Já uma visão de Kosmos implicaria o desenvolvimento de um "Olho do Espírito", uma vez que causas oriundas de um holon transcendente pareceriam inexplicáveis - ou fatos acausais, na visão de Carl G. Jung - se considerado apenas a esfera anterior.

Wilber também expande o conceito da Dinâmica da Espiral de Clare W. Graves, um modelo dos estágios do desenvolvimento humano, aplicável a vários campos, de acordo com uma visão do mundo mais ou menos individual, familiar, coletiva ou holística.

Segundo o filósofo, a maioria das visões espirituais e psicológicas incorrem numa visão dualista (racional ou espiritual, ciência ou religião, ego ou essência do ser). Para Wilber, contudo, há um modelo de três camadas (pré-pessoal, pessoal e transpessoal; mítico, religioso ou místico; corpo, ego ou Ser; instinto, intelecto ou intuição; natureza, cultura ou Kosmos), e há um falácia ao incluirmos as experiências pré-pessoais na coluna "espiritual" do modelo anterior. Assim, sua análise discerne, no dito espiritual, aquilo que é "transpessoal" e evolutivo daquilo que seria "pré-pessoal".

Wilber propõe dez níveis e quatro quadrantes que, se combinados, geram a abordagem "todos os níveis, todos os quadrantes" de sua Filosofia Integral.

SUPERIOR ESQUERDO: Interior-Individual, Eu. Psicologia do Desenvolvimento.
SUPERIOR DIREITO: Exterior-Individual, Isto. Neurologia, Ciência Cognitiva.
INFERIOR ESQUERDO: Interior-Coletivo, Nós. Psicologia cultural, antropologia.
INFERIOR DIREITO: Exterior-Coletivo, Istos. Sociologia.


Cada um destes quadrantes apresenta 10 estágios ou níveis, sub-divididos em pré-pessoais, pessoais ou transpessoais:

TRANSPESSOAL: Causal, Sutil e Psíquico
PESSOAL: Centáurico/Visão Lógica, Formal (formop) e Operacional Concreto (conop)
PRÉ-PESSOAL: Rep-ment, Fantásmico-emocional, Sensório-físico e Indiferenciado ou matriz primária

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